
O “Guia Alimentar para a População Brasileira”, lançado em 2014 pelo Ministério da Saúde, é uma referência importantíssima que visa, ao promover escolhas alimentares saudáveis, a prevenção de uma série de doenças crônicas não transmissíveis como: obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, dentre outras. Uma das contribuições marcantes do Guia foi a classificação dos alimentos em quatro grupos conforme o seu grau de processamento, destacando a importância de uma dieta baseada em alimentos in natura ou minimamente processados.
Os alimentos ultraprocessados são produtos que não conseguiríamos preparar em nossas casas, ricos em açúcares, gorduras saturadas, sódio, aditivos químicos (espessantes, emulsificantes, corantes, aromatizadores e realçadores de sabor), e muito pobres em nutrientes. São produtos altamente palatáveis e estão muito associados às doenças citadas anteriormente que precisamos prevenir. Alguns exemplos são: refrigerantes, salgadinhos industrializados, biscoitos industrializados, biscoitos recheados, balas, embutidos, gelatinas com sabor e coloridas artificialmente, sucos em pó e bebidas lácteas.
Estima-se que, no Brasil, oito em cada dez crianças de até cinco anos consomem esses alimentos, e uma em cada dez já apresentam algum grau de excesso de peso. A abordagem presente no Guia ganhou ainda mais relevância com a recente implementação da Lei 7.987/23, que proíbe a venda e distribuição de alimentos ultraprocessados nas escolas da rede pública e particular do município do Rio de Janeiro. Essa legislação representa um marco importante na promoção da saúde infantil, reconhecendo a necessidade de proporcionar ambientes escolares mais saudáveis e nutricionalmente adequados.
A importância da alimentação saudável na primeira infância
Na primeira infância, a alimentação desempenha um papel fundamental no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças. Nutrientes adequados nesta fase são essenciais para o crescimento saudável e boa qualidade de vida, o desenvolvimento do sistema imunológico, a prevenção de doenças e a formação de hábitos alimentares saudáveis que perduram por toda a vida. Ao seguir as diretrizes do Guia Alimentar e adotar uma abordagem baseada em alimentos in natura e minimamente processados, as escolas podem desempenhar um papel fundamental na promoção da saúde das crianças.
Sabemos que a implementação da lei nas escolas pode trazer muitos desafios, como: possível resistência por parte de alunos e pais, adaptação do cardápio e adequação da produção na cozinha e da equipe. Visando tentar reduzir essas barreiras, é importante implementar estratégias como: educar a comunidade escolar sobre a importância da alimentação saudável e impactos de ultraprocessados na saúde; distribuir materiais de orientação como e-books de lanches saudáveis; incentivar hábitos saudáveis com atividades práticas, como hortas escolares; fazer parcerias com fornecedores de alimentos saudáveis e orgânicos para conseguir melhores preços, utilizar produtos sazonais e pesquisar boas empresas com produtos especializados em alimentação saudável para bebês e crianças.
Diante desse cenário, o desafio será muito maior se a escola tentar apenas impor novas práticas. É de suma importância discutir estratégias que envolvam toda a comunidade escolar (educadores, famílias e nutricionista) em parceria para a construção de um futuro mais saudável.
Beatriz Saramago – Nutricionista da Jornada Mima (Empresa de alimentação saudável para bebês e crianças)
